O que mais nós podemos perder?
Outro dia, uma das professoras da faculdade estava falando sobre a cultura da confiança, enfatizando como ela praticamente inexiste no Brasil. A professora falava isso no contexto do cumprimento das leis, que aqui nós temos, contraditoriamente, a cultura de burlar. Mas, pensando sobre isso, cheguei à conclusão de que o desrespeito às normas é apenas um exemplo mais perceptível do que a nossa cultura da desconfiança é capaz de produzir. Sim, porque a descrença nos outros, que nós herdamos, acumulamos e multiplicamos, tem várias outras conseqüências que ficam por trás das portas das nossas casas, que se manifestam nas nossas relações mais particulares com outras pessoas. Vivemos um tempo em que confiar virou sinônimo de errar. Desconfiar é que é o certo. Se você confia nas pessoas, é quase considerado um autista. Confiar se tornou quase uma transgressão, e no nível mais poderoso, o nível empírico, que influencia de modo muito mais efetivo o comportamento humano do que qualquer conceito formulado num nível teórico e/ou científico e imposto por um código. Quem de nós ainda consegue ter um relacionamento afetivo livre da sombra da desconfiança? Via de regra, nos permitimos confiar uma única vez, naquela fase da juventude em que isso ainda nos parece desculpável. Se essa primeira experiência for mal-sucedida, a probabilidade de darmos votos de confiança a outras pessoas é reduzidíssima. Nossos relacionamentos estão sempre na corda-bamba, constantemente ameaçados pelo nosso próprio cinismo, pela nossa mania de esperar sempre o pior de qualquer um. Não existe mais espontaneidade, vigiamos e somos vigiados a todo momento, estamos à espera de qualquer deslize, de qualquer mínimo motivo que nos permita dizer "Eu sabia!", de qualquer oportunidade para confirmar esse nosso sentimento corrosivo de que tudo está perdido, de que a humanidade não tem salvação, de que não devemos nos importar com ninguém porque ninguém se importa com a gente. É comum julgarmos e condenarmos uns aos outros por um olhar, por uma palavra, por um gesto em um momento. Esquecemos de vários outros olhares, outras palavras e outros gestos do mesmo sujeito. É comum pensarmos o pior de pessoas que mal conhecemos pelas primeiras atitudes dela, que podem não representar quem ela é de verdade. Perdemos a chance de descobrir o melhor das pessoas, porque nos acostumamos a procurar os erros, as falhas, os defeitos. As manchetes de crimes e de guerras nos atraem, porque elas nos dizem que estamos certos. Como podemos confiar nas outras pessoas se elas podem nos trair e até matar? Estamos tão cinzas, tão nublados; estamos tão artificiais, tão superficiais... Será que viver assim, cheios de reservas, é a melhor maneira que temos de viver? Por mais que a gente queira e deva se resguardar, evitar sofrimentos, será que já não passamos da conta? Viver desse jeito é tão chato, será que vale a pena pagar esse preço para evitar problemas que podem ou não existir? Não seria melhor fazer o contrário, viver confiando, viver intensamente, e se preocupar apenas com os problemas que existissem de fato? Não é preferível ser otimista? Não sei se a nossa geração é capaz de se reinventar e adotar um novo modo de viver. Mas acho que seria uma grande conquista se ao menos conseguíssemos não perpetuar essa visão tão negativa de nós mesmos. Talvez esse seja o primeiro passo para voltarmos a nos respeitar. Afinal, o que mais nós podemos perder?

4 Comentários:
Fui lendo e pensando. Na verdade, relembrando tanta coisa por q já passei.
Eu costumo dizer que ainda confio nas pessoas. E, desculpe-me, por isso mesmo vivo quebrando a cara, levando porrada, sofrendo pra caramba.
As pessoas sempre me desapontam, sempre me traem, sempre me magoam.
Mas eu continuo a acreditar nas pessoas pq não sei viver de outra forma.
Sou idiota, pateta, bobo.
Algumas poucas coisas ainda me fazem ver que confiar ainda é válido, mesmo que o saldo positivo seja pouco. Mas enquanto houver saldo positivo, acho que ainda vale a pena.
Leina, gosto de textos assim, que me façam refletir.
E vc consegue fazer isso comigo.
Beijão,
Leandro
Teve uma parte que eu senti que foi tão pra mim...rs
Lembrei daquela máxima: confiar desconfiando...e nunca pensei de fato no que isso representa...
Qdo eu chegar a alguma conclusão eu te conto. :-)
Beijos
Eu ainda não sei o que pensar sobre confiança. Eu confio demais, mas é uma confiança que as vezes vem recheada de insegurança. Travo uma batalha interna todos os dias.
Convivo diariamente com uma pessoa hiper desconfiada: o meu pai. Desconfia até da própria sombra. Mas quem o conhece, sabe que ele não é normal!!! Mas eu, graças à Deus, não herdei esse defeito. É claro que não devemos ser ingênuos e confiar em tudo e em todos. Mas acredito que os "sempre desconfiados" sofrem muito mais do que aqueles que levam algumas "cacetadas" por ter confiado em alguém. Na vida, tudo tem 2 caminhos, 2 escolhas: o bem e o mal. Acredito que o da confiança seja o do bem. E acredito ainda que Deus nos protege, nos ampara e nos conforta, quando escolhemos esse caminho, independente do que possa acontecer.
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